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No meu Palato

No meu Palato

Quinta dos Carvalhais | Carácter, elegância e um ídolo em parte incerta

 "Esta é a melhor coisa da História, sublime!!! Estaria disposto a sacrificar a minha primeira experiência sexual só para poder voltar a experimentar esta maravilha." Anthony Bourdain

Quinta dos CarvalhaisNormalmente, quando alguém me diz que alguma coisa é "a melhor da história do mundo", sobretudo no contexto comida-vinhos, torço logo o nariz, com duas excepções: Gordon Ramsay e Anthony Bourdain. Dois ídolos, cada um, por motivos diferentes. No fascinante mundo da gastronomia um é mestre na execução, outro doutorado na descrição.  Quando Anthony Bourdain nos diz que há uma massa que é  "sublime", bem, aí  estou disposto a acreditar nele sem reservas (se não perceberam o trocadilho, podem parar de ler por aqui ;)). 

Quinta dos CarvalhaisNos seus livros e programas, Bourdain mostra muitas vezes a sua paixão pela clássica receita romana de massa Cacio e pepe (queijo e pimenta). É o equivalente italiano ao macarrão com queijo, um prato incrivelmente simples, profundamente decadente e que se prepara com apenas quatro ingredientes omnipresentes: esparguete, pimenta moída fresca, manteiga derretida e queijo parmesão.

Quinta dos Carvalhais

Num episódio infame do seu programa No Reservations, Bourdain visitou um restaurante incógnito (tendo sido mais tarde revelado: Ristorante Roma Sparita), onde devorou um Cacio e pepe tão delicioso, mas tão delicioso, que listou um punhado de experiências que sacrificaria para que a pudesse voltar a comer: um concerto de Jefferson Airplane, algumas viagens, o livro The Catcher in the Rye e ... a sua primeira experiência sexual. Convenhamos que a massa deve de ser muito boa ;)

Quinta dos CarvalhaisDepois de umas pesquisas online, encontrei a receita desse Cacio e pepe (que mais tarde irei partilhar com vocês) e achei que essa massa seria a ideal para acompanhar  os vinhos da Quinta dos Carvalhais

Quinta dos CarvalhaisVinhos delicados, elegantes, com carácter forte, uma invulgar capacidade de guarda e portadores de um ADN claramente e vincadamente Dão. Com uma área total de 105 hectares, 50 dos quais de vinhas e aconchegada no planalto Beirão ( no concelho de Mangualde, junto a Nelas e Alcafache), a Quinta dos Carvalhais guarda 9 tipos de terroirs diferentes: uma herança apaixonante de vinhas, segredos, solos e clima, onde as castas típicas da região (como Touriga Nacional ou Encruzado) têm o palco ideal para brilharem. 

Quinta dos CarvalhaisA Quinta dos Carvalhais é, actualmente, uma verdadeira referência na vitivinicultura portuguesa, tendo sido decisiva na defesa dos interesses e das condições de vida de muitos pequenos vitivinicultores que aí entregam as suas uvas, bem como na produção de vinhos de qualidade extra dirigida pela sabedoria e paixão da enóloga Beatriz Cabral de Almeida. Hoje vou falar-vos dos seus mais recentes lançamentos. Começando pelo rosa blush (quase parece uma cor Dior ;)) Quinta dos Carvalhais Rosé 2019 (7€, 85 pts.). 

Quinta dos CarvalhaisEstá carregado de frutos silvestres, morangos, amoras, groselhas e violetas. Antes de ser engarrafado, este vinho, com Touriga Nacional e Alfrocheiro Preto estagiou 4 meses, 70% em cubas de inox e 30% em barricas usadas de carvalho francês que lhe deram pequenas notas em forma de brisa da madeira. É um rosé surpreendentemente complexo, elegante, equilibrado e fresco. 

Quinta dos CarvalhaisO monovarietal Encruzado é um dos vinhos que ajudou a criar o prestígio da Quinta dos Carvalhais.  Parte do lote estagia em inox e a outra parte, 6 meses em barricas novas de carvalho francês de diferentes capacidades, durante os quais o vinho foi sujeito a frequentes operações de agitação das borras finas que lhe transmitiram mais volume e complexidade. Este Quinta dos Carvalhais Encruzado 2019 (14€, 89 pts.), entre o amarelo-palha e o amarelo-citrino exibe no nariz limão, lima, abacaxi, espargos, acácia-lima e ligeiros apontamentos de amêndoa torrada.  No palato mostra bom volume e uma acidez cativante, é fino, harmonioso e complexo. 

Quinta dos CarvalhaisPara acompanhar o Cacio e pepe do Anthony Bourdain nada melhor que o vermelho-rubi quase opaco Quinta dos Carvalhais Reserva Tinto 2017 (35€, 92 pts.). O estágio e maturação, de 12 meses, em barricas de carvalho francês (novo e usado) deram-lhe umas notas a carvalho deliciosas que conjugadas com ameixa preta, cereja madura, resina picante, cedro, sous-bois,  hortelã-pimenta e violetas, o tornam bastante complexo e muito exuberante.  

Quinta dos CarvalhaisNa boca é mineral (pedregosidade a xisto), fresco, com taninos redondos, persistente e bastante rico. Adjectivos comuns a todos estes vinhos da Quinta dos Carvalhais? Carácter e elegância. A Bia ainda procurou no livro do Anthony Bourdain mais alguns paralelismos que pudéssemos usar nesta publicação (sim ela é sobredotada ;))  mas a única frase que encontrou em todas as páginas foi: "Os pais devem sempre dar chocolate aos filhos, sempre que os mesmos o desejarem" ;) 

Quinta dos CarvalhaisQue nessa parte incerta onde Anthony Bourdain se encontra possa continuar a desfrutar do "seu" Cacio e pepe e de vinhos com o calibre parecido aos de que vos falei hoje. Sempre com carácter, elegância e frontalidade.

Quanto à massa, esparguete servida numa tigela de parmesão, a opinião da família  é unânime: este prato é ... "sublime", só não sei é se estaria disposto a fazer as mesmas trocas que o Bourdain enunciou para a voltar a comer ;)

Cacio e pepe

-Para a tigela de parmesão,  aqueçam ligeiramente uma frigideira anti-aderente e coloquem lá dentro o queijo parmesão ralado de forma a criar um círculo com cerca de 15 cm de diâmetro. Deixem cozinhar lentamente durante cerca de 5 minutos (até todo o queijo tiver fundido e começar a borbulhar). Quando o queijo estiver derretido, desliguem o lume, deixem o círculo ganhar alguma consistência mecânica e retirem-no com a ajuda de uma espátula, colocando-o por cima de uma tigela de pequeno-almoço, virada ao contrário. O queijo vai solidificar com a forma dessa tigela.  Quando estiver duro, crocante e estaladiço, está pronto a servir;

-Cozinhem a massa esperguete de acordo com as instruções da embalagem. Quando a massa ainda estiver dura (cerca de três minutos antes), tirem-na da panela.  Adicionem alguma da água fervente da massa, a manteiga e a pimenta ralada na hora a uma panela quente. Mais tarde adicionem a massa escorrida a essa panela e misturem-na com o molho até que a massa o absorva quase todo. Retirem do lume e adicionem o queijo parmesão à massa. Mexam rapidamente o queijo na massa, coloquem na tigela de parmesão e decorem com mais queijo ralado e pimenta ralada a gosto;

-Podem servir assim ou com umas costeletas de borrego grelhadas para acompanhar a estrutura e complexidade do Quinta dos Carvalhais Reserva Tinto 2017.

Vinhos Dona Maria | Amantis, desleixo, murta e uns raminhos de freixo

" Pois é senhor padre! Nem sempre galinha, nem sempre rainha!"  D. João V

Dona MariaEstávamos em 1709 e em Portugal governava sua Majestade fidelíssima o rei D. João V. Uma das figuras mais discutidas e mais polémicas da história do nosso país. Muita gente a favor, muita gente contra, e isso, normalmente é bom sinal. O certo é que era uma altura óptima para se ser português, chegavam os galeões do Brasil carregados com barras de ouro: as barras dos quintos do Brasil. Portugal era um país próspero, rico e mandão. D. João V lançava um vasto número de obras monumentais, de que são exemplo o convento de Mafra, o aqueduto das águas livres ou  a academia de história. Acontecia nesta altura ainda  o envio de bolseiros portugueses para o estrangeiro e a contratação de professores reconhecidos para o ensino português.

Dona MariaD. João V desenvolveu ainda as artes menores (talha, azulejo e ourivesaria) e as artes maiores através de vários pintores e escultores que se deslocaram de Itália para trabalhar em Lisboa e Mafra. Por tudo isto, D. João V é considerado um mecenas da cultura e ciência portuguesa.  D. João V terá sido ainda, por ventura, o melhor "ministro dos negócios estrangeiros" que tivemos, pois seguiu uma política de neutralidade em relação aos conflitos europeus, empenhando-se fortemente na defesa dos interesses portugueses no comércio ultramarino.

Dona MariaEste rei, pretendeu, à semelhança dos outros monarcas europeus, imitar Luís XIV. Defensor do absolutismo, não reuniu as Cortes uma única vez durante o seu reinado. Promoveu ainda o Tratado de Methuen, um acordo comercial assinado com o Reino Unido que facilitava as trocas do vinho do Porto pelos tecidos britânicos. Devido a todos estes alicerces que lançou no campo da cultura, da arte, da literatura, da ciência e do vinho, ficou conhecido por "o Magnânimo". 

Dona MariaOutra característica, particular, de D. João V valeu-lhe o cognome não-oficial de "O Freirático".  Segundo Alberto Pimental no livro "As Amantes de D. João V", D. João V, era um galã, possuía essa altivez de porte, essa majestade sobranceira que o igualava a Luís XIV e que devia enlouquecer de orgulho a mulher que o visse rendido a seus pés, suplicante e apaixonado. Resultado disto? Muitas amantes, sobretudo freiras, por ser crente :P A frase "Flor da murta, raminho de freixo; deixar de amar-te é que eu não deixo!"  era o seu piropo infalível. 

Dona MariaDona Maria era uma dessas suas amantes, e para lhe agradecer os serviços prestados à "coroa" (;)) portuguesa o rei   D. João V oferece-lhe a casa da Quinta do Carmo (situada em Estremoz), um palácio senhorial do século XVIII, com muitos dos excessos do barroco. Estavam assim lançadas as sementes (por favor não leiam trocadilhos onde eles não existem ;)) para os actuais vinhos D. Maria. 

Dona MariaHá aproximadamente 150 anos que se produz vinho nesta propriedade, mas é apenas a partir de 2003 que se fez a primeira vindima de uma nova etapa na longa vida desta Quinta, cujo conceito, é agora a produção de vinhos de qualidade aliado a um projecto familiar, que sempre distinguiu esta propriedade ao longo dos tempos.  Há nestes vinhos uma nota evidente de terroir e um compromisso com uma certa elegância aristocrática, com uma finesse sofisticada. Vinhos com personalidade e sentimento de pertença. 

Dona MariaCuriosamente o primeiro vinho de que vos vou falar hoje é o Dona Maria Amantis Reserva 2017 (16€, 89 pts.). Para além da genialidade do nome, este vinho amarelo dourado claro com ligeiros apontamentos esverdeados, carrega manga,  alperce, puré de pêra, acácia-lima, murta e ligeiras notas a barrica muito bem casadas com os restantes aromas. Na boca é elegante, fino,  estruturado e com uma frescura nada comum para aquela região. Por sua vez, o vermelho-violeta vivo  Dona Maria Tinto  (11€, 86 pts.) é muito rico nos aromas, com frutos do bosque, ameixa vermelha, cassis, cedro, ligeiro fumado e uma brisa floral (tomateiro). No palato é elegante, longo e equilibrado.

Dona MariaO Dona Maria Grande Reserva Tinto 2014 (35€, 94 pts.), é "vinho de outra pipa" ;). De cor rubi, exibe aromas de ameixa vermelha madura, mirtilos, fruta do bosque, hortelã-pimenta, cacau, freixo,  pimenta preta e canela. Na boca confirma todos os predicados evidenciados no nariz, acrescentando intensidade, subtileza, elegância e taninos redondos. Tem tudo para ainda ficar maior em garrafa. Um bom vinho para celebrar o amor e que acompanhou na perfeição um "Risotto" de quinoa e bulgur com presa de porco ibérico.  

Dona MariaE por falar em amor, voltemos a D. João V. Ficou célebre o seu tórrido romance com a freira Madre Paula, do mosteiro de S. Dinis em Odivelas, com quem teve inúmeros filhos, aos quais nunca nada faltou e ficando na história conhecidos pelos Meninos de Palhavã, porque residiam em Palhavã (num antigo Palácio onde actualmente está a embaixada de Espanha em Lisboa).  A rainha consorte (neste caso não sei se o termo está muito bem empregue ;)), também de nome Maria, austríaca e desleixada (e muito feia contam alguns relatos antigos), sentindo-se rejeitada foi desabafar com um padre, seu confessor. 

Dona MariaUns dias mais tarde esse padre, conhecedor da devoção de D. João V, chamou o rei à razão. Então o rei ordenou ao cozinheiro que a partir desse dia, o padre passaria a comer todos os dias, apenas e só ... galinha.  Nos primeiros dias o padre até ficou satisfeito e deliciado com esta iguaria, ingrediente destinado apenas às mesas abastadas de então.
Mas passados uns meses o padre triste, enjoado e magro que nem um virote, foi queixar-se ao rei que o cozinheiro real apenas lhe dava ... galinha.  Foi então que o rei com ar de malandro lhe disse:  "Pois é senhor padre! Nem sempre galinha, nem sempre rainha!". ;)

 

"Risotto" de quinoa e bulgur com presa de porco ibérico

-Grelhem em azeite, alho e loureiro os pedaços de presa de porco ibérico. Depois de estarem bem tostados de ambos os lados acrescentem brandy, vinho do Porto Rubi e um pouco de sumo de limão e deixem cozinhar lentamente por 30 minutos até o molho reduzir bastante;  

-Entretanto num tacho levem a ferver um grande volume de água com sal. Juntem a Quinoa e Bulgur (usei a mistura da Tipiak) e deixem cozer fervendo durante 12 minutos. Decantem de modo a ficarem com a quinoa e bulgur sem água. Voltem a introduzir no tacho, acrescentem manteiga, queijo parmesão, pimenta, um pouco de noz-moscada e duas colheres do molho do tacho onde estão a grelhar as presas.

 

S. João 2020 no The Yeatman | Pirotecnia rima com gastronomia

The Yeatman S. JoãoCumprindo com todas as regras e recomendações, o The Yeatman abre as portas dos seus dois restaurantes e generosos terraços, com menus distintos, mas que partilham da mesma vontade: homenagear os sabores típicos da noite que celebra o santo padroeiro da cidade.

The Yeatman S. JoãoNo Restaurante Gastronómico, premiado com duas Estrelas Michelin, o menu proposto pelo Chefe Ricardo Costa reflecte a sua visão: os sabores da tradição trabalhados com mestria e criatividade.

The Yeatman S. JoãoUma intenção desvendada desde logo no primeiro prato, Tomate & Sardinha “Nitro”, de um menu que serve Portugal e a costa atlântica à mesa, do Bacalhau com xerém, coentros e ovo, à Raia com couve-flor, couscous e molho de pitau, e que termina com o prato de Leitão, verdadeiro ex-libris da cozinha do chefe natural de Aveiro. Entre as sobremesas, pode encontrar-se mais um capítulo do receituário português: Ovos Moles & Tripa de Chocolate, doce típico das praias da Costa Nova.

The Yeatman S. João

O menu, disponível a partir das 19h30, é acompanhado por uma seleção de vinhos também especialmente pensada para a celebração, incluída no valor de 250,00 € por pessoa.

The Yeatman S. JoãoNo Restaurante Orangerie, mantém-se a homenagem aos sabores tradicionais, com alguns dos pratos do primeiro menu, entre os quais as Sardinhas & Tomate “Nitro” e o prato de Raia, aos quais acrescem as Conservas Portuguesas, em que o Chefe recupera esta técnica centenária da costa piscatória, para dar a provar diferentes peixes e bivalves. Segue-se Gamba Violeta, com arroz frito, gamba e Bloody Mary e Cordeiro de Leite, com abacate, chili e molho tandoori. A sobremesa mergulha na frescura dos sabores da estação: Cereja, Coco e Manjericão. 

The Yeatman S. JoãoO jantar terá início às 20h00 e o menu é também acompanhado por uma selecção de vinhos, tendo o valor de 160,00 € por pessoa e de 80,00 € para as crianças dos 5 aos 12 anos. As crianças até aos 4 anos são convidadas.

The Yeatman S. JoãoDe acordo com as novas regras, os lugares são muito limitados e a pré-reserva é obrigatória, por e-mail (events@theyeatman.com), telefone 22 013 3106 ou 22 013 3100, ou online, nos links: https://www.the-yeatman-hotel.com/pt/gastronomia/restaurante/https://eventos.theyeatman.com/pt/eventos/jantar-de-sao-joao-the-orangerie-268.

Bom S. João ;)

Dom Ponciano | Um português suave em três mosqueteiros

“Há situações que os homens captam com o instinto, mas são incapazes de comentar com a inteligência. O maior poeta, neste caso, é aquele que solta o grito mais veemente e espontâneo. As pessoas tomam esse grito por um relato completo, e têm motivos para se contentarem com isso, e mais motivos ainda para julgarem-lo sublime quando é autêntico.“ Alexandre Dumas

Dom Ponciano"Unus pro omnibus, omnes pro uno" é uma frase escrita em latim cujo significando em português é "Um por todos, todos por um" . Toda a gente a conhece por ser o lema dos Três Mosqueteiros no eterno romance de Alexandre Dumas. Esta frase é também o lema da Suíça, mas neste último caso a explicação talvez tenha a ver com chocolates ou então com contas bancárias ;)

Dom PoncianoNo início da história (passei muitos dias da minha infância ansiando por ver os episódios que no inicio da década de 90 passavam na RTP), D'Artagnan chega a Paris, vindo da Gasconha e envolve-se em três duelos distintos com os três mosqueteiros Athos, Porthos e Aramis. Os quatro tornam-se amigos tão íntimos que, quando D'Artagnan passa a ser aprendiz de mosqueteiro, cada um desses seus amigos ia assumindo, à vez, o dever da sua guarda. As ousadas aventuras dos quatro camaradas acontecem por entre intrigas na corte francesa envolvendo o poderoso cardeal Richelieu.

Dom PoncianoOs Três Mosqueteiros é o mais famoso dos cerca de 250 livros de Dumas (e dos seus 73 assistentes !!???!). Alguns de vocês também devem conhecer outra das suas obras, O Conde de Montecristo. O que provavelmente já não saberão é que ele é também o responsável pelo Grande Dicionário da Cozinha. Nesse dicionário, Dumas percorre um a um, os diferentes alimentos e bebidas, começando no absinto e acabando no vinho Zorzal. É um dos mais importantes e influentes livros da culinária mundial e um dos que mais me marcou.  Nele podemos encontrar cartas, relatos na primeira pessoa, história com estórias e inúmeras receitas. No final apercebemos-nos que acabamos de levar uma valente lição de cozinha, de bem escrever, de tradições, de costumes e de História.

Dom PoncianoHá quem diga que Dumas esteve a "treinar" em todas as suas outras obras, para afinar a escrita para esse grande dicionário, que seria a sua obra-prima. É por este motivo, também, que a relação estreita com a comida e com o vinho de Dumas transparece, e muito, na falta de moderação dos mosqueteiros.  Em inúmeros festins que acontecem um pouco por todo o livro, os 4 amigos pedem várias garrafas de vinho e, a uma certa altura, um deles consome ... uma adega inteira. A frase “Volte para onde estava; pegue nesses vegetais horríveis que trouxe e ... vá buscar uma lebre banhada em tinto, um capão gordo, uma perna de carneiro com alho e quatro garrafas da velha Borgonha." resume bem o espírito eno-gastronómico destes malandros. 

Dom PoncianoFoi também por isso, que escolhi Dumas para me ajudar a contar-vos uma história sobre os vinhos Dom Ponciano. Estes vinhos começaram a ser produzidos no século XIX, pelos pais de Ponciano de Abreu que vinificavam Alvarinho nas suas propriedades situadas nas encostas de Paderne, em Melgaço, na zona Noroeste de Portugal. Para além de consumo próprio, o vinho servia para pagarem favores aos médicos e advogados e até as contas da botica. As condições excepcionais do solo, clima e exposição solar, repercutiam-se na qualidade do vinho, que começou a ganhar fama nesta região.

Dom PoncianoJá no início do século XXI, Rui Esteves, neto de Ponciano, retomou o projecto de uma forma profissional, tendo decidido passar a comercializar o seu Vinho Verde Alvarinho com a marca "Dom Ponciano". Estes vinhos, obtidos através das mais modernas tecnologias de vinificação, apresentam-se frescos, balsâmicos e muito expressivos na boca, onde surgem poderosos, com acidez firme e um final persistente, sendo os parceiros ideais para um Bacalhau à Brás com crocante  de toucinho.

Dom PoncianoDom Ponciano, assume três capas: Alvarinho, Alvarinho Colheita Seleccionada e Espumante Grande Reserva. O Dom Ponciano Alvarinho 2018 (11€, 86 pts.) exibe-se amarelo-cítrico cristalino e com aromas a maracujá, lichia, jasmim e flor de laranjeira. No palato é suave, delicado e fresco.  

Dom PoncianoPor sua vez o  Dom Ponciano Colheita Seleccionada 2013 (30€, 93 pts.) de cor palha levemente amarelada é resultante de parcelas de vinha velha de Alvarinho de ramada e estágio prolongado em inox (borras finas), 6 meses em madeira e posterior envelhecimento por 36 meses em garrafa. O seu nariz é muito complexo com limão, toranja, pêssego, maracujá, relva cortada e uma baunilha muito subtil. No palato é untuoso, largo e intenso, mas sem perder a suavidade, equilíbrio e elegância .

Dom PoncianoPara último ficou o surpreendente Dom Ponciano Alvarinho Natural Bruto Espumante 2013 (35€, 93 pts.). No copo mostrava-se amarelo-cítrico límpido e com bolha finíssima. Transportava aromas a clementina, acácia-lima, maracujá e um inesperado brioche que catapultou a complexidade para outro nível. 

Dom Ponciano

Na boca confirma os excelentes predicados da fruta mostrados no nariz, acrescentando persistência, ponderação, equilíbrio, intensidade e muita finesse.  Não estava nada à espera de levar uma "estalada" assim... Acompanhou, de maneira sublime, uma conversa no final de uma sardinhada em casa dos meus pais (a primeira deste ano: a sardinha ainda precisa de pelo menos um mês para estar no ponto).

Dom PoncianoE sublime é algo que caracteriza muito bem a suavidade, elegância e jovialidade destes três vinhos mosqueteiros, sublime ... porque todos eles são autênticos: um por todos, todos pela delicadeza do Alvarinho ;)

Nota: Um dia destes parto um copo ou uma garrafa por causa de fotografias como esta última :)

 

Bacalhau à Brás com crocante  de toucinho

-Cozam o bacalhau ( 3 postas boas sem deixar ferver) durante 15 minutos e reservem até arrefecer;
-Entretanto descasquem duas cebolas, três dentes de alho e piquem tudo juntamente com um pouco de pimento verde e couve. Levem tudo ao tacho com azeite até tudo estar cozinhado;

-Desfiem o bacalhau e juntem ao preparado anterior;

-Batam 5 ovos com o leite, juntem sal, pimenta, noz moscada e um pouco de brandy e acrescentem ao tacho da etapa anterior;
-Juntem a batata palha (com pouco sal), envolvendo tudo. Deixem cozinhar, mexendo sempre;
-Tostem (quase até queimar ;)) algumas fatias de bacon/toucinho fumado num tacho (não há necessidade de acrescentarem azeite ou margarina, a gordura da carne basta). Retirem do tacho e piquem em pedaços bem pequenos; 
-Polvilhem o bacalhau com salsa picada, as azeitonas e o toucinho crocante.

Quinta da Casa Amarela | A verdade que ficou por escrever

“Escreve, se puderes, coisas que sejam tão improváveis como um sonho, tão absurdas como a lua-de-mel de um gafanhoto e tão verdadeiras como o simples coração de uma criança.” Ernest Hemingway

Casa AmarelaMisturando (pouco) ficção com (muita) autobiografia, Ernest Hemingway presenteou-nos com o livro deliciosamente genuíno "Verdade ao Amanhecer". Este é um auto-retrato genial do seu último safari no Quénia. Escrito em 1953 a obra vai sendo tecida com história, riqueza, humor, valores e beleza.

Casa AmarelaHemingway quase que nos consegue transportar para o terroir africano: para a excitação da observação aos grandes animais selvagens, para a incomparável beleza da planície africana, para as melancólicas manhãs cobertas de nuvens ameaçadoras, para a admirável silhueta das zebras contra o pôr do sol no horizonte ou para os gritos das hienas numa noite escura e gelada. Mas mais importante que isso, Hemingway reflecte, sobretudo,  sobre o próprio ato de escrever, sobre a memória e sobre a verdade.

Casa AmarelaNo entanto, e paradoxalmente, este foi um livro que ficou por escrever. Com uma vida de excessos, com aventuras, mulheres (e muitas ;)) e vinho (do bom ;)), sua saúde física e psicológica começou a degradar-se, levando ao suicido em 1961. É o filho de Hemingway, que depois de ler os manuscritos deixados pelo seu pai, juntou as 200 mil palavras que compõem este livro, de verdade, sobre a verdade e sobre a verdade das memórias.

Casa Amarela

Foi por estas características que escolhi uma frase desse livro para metaforizar os vinhos da Quinta da Casa Amarela, que se situa na margem esquerda do Rio Douro, a meio caminho entre as cidades da Régua e Lamego. Encontra-se na posse da mesma família desde o ano de 1885 e a casa de habitação, reconstruida e ampliada no primeiro quartel do século passado, empresta o nome à propriedade, em virtude da cor amarela com que se encontra pintada. A tradição é, de facto, preservada nesta Quinta...

Casa Amarela Começa logo pela vinha, com uma idade média superior a 45 anos, instalada em terraços suportados por muros de pedra, onde a plantação acompanha as curvas de nível e cuja densidade maximiza o aproveitamento da energia solar e as fracas disponibilidades do solo xistoso, em termos de água e nutrientes. Começamos a descoberta dos seus vinhos pelo Quinta da Casa Amarela Rosé 2018 (10€, 85 pts.), de cor rosa avermelhada cristalina, transporta frutos silvestres, amora, leve floral (rosas) e uma inusitada mineralidade. Na boca é fresco, intenso e bastante descomplicado e ligou muito bem com uma salada de Verão (tomate, queijo fresco, abacate, ananás dos Açores, tâmaras, amêndoa picada, sal do Chipre e azeito do Douro ;)) 

Casa Amarela

Já o Quinta da Casa Amarela Grande Reserva Branco 2018 (35€, 91 pts.), surgiu amarelo dourado límpido, com toranja, tangerina, limonete, maçã assada, flor de laranjeira, noz-moscada, cera, leve fumado e notas minerais (xisto molhado).  

Casa Amarela

Na boca é estruturado, potente, fresco, denso, quase mastigável mas sem perder a elegância e classe. Acompanhou na perfeição um Linguado com molho doce de cebola, salsa, pimentos, malagueta e amendoim tostado

Casa AmarelaPassando para os tintos, o Casa Amarela Tinto 2018 (10€, 86 pts.) de cor rubi muito densa, trazia no nariz frutos silvestres, amoras, ameixa preta, violetas, esteva e baunilha. Na boca exibe taninos tão elegantes quanto surpreendentes,  equilíbrio e finesse

Casa Amarela

Aumentando a profundidade chegamos ao Casa Amarela Tinto 2016 km 16(18€, 89 pts.), de cor rubi densa e evidenciando aromas a ameixa, doce de morango, mirtilos, amoras, alcaçuz, pimenta preta e esteva. No palato passeia-se com excelente acidez, durabilidade, equilíbrio e complexidade inesperada.

Casa AmarelaUm dos meus favoritos foi o Quinta Casa Amarela Reserva Tinto 2015 (25€, 90 pts.). No copo é vermelho-rubi intenso, no nariz mostra amoras, cereja madura, mirtilos, ameixa preta, sous-bois e no palato dá taninos muito aguerridos (mas com tendência a arredondar), uma acidez inebriante e uma persistência encantadora. 

Casa AmarelaTodos estes tintos acompanharam muito bem uma Barriga de porco ibérico com figos confitados e puré de chuchu, mas o que mais se destacou, como não poderia deixar de ser, foi o Quinta da Casa Amarela Elísio 2015 (45€, 93 pts.). Um vinho que, no entanto, exige umas boas horas de oxigenação para se exibir com todos os seus predicados. 

Casa AmarelaTraja um rubi quase opaco com apontamentos violetas, tem um nariz muito rico e completo com fruta do bosque, compota de ameixa, pimenta branca, húmus, chá verde, cacau, sous-bois, trufa e notas inesperadas a ... terra húmida. 

Casa AmarelaCuriosamente, este vinho é uma homenagem a alguém que ensinou os actuais proprietários a respeitar e amar a ... terra. De certeza que alguém no Céu, está muito contente ;)

Casa AmarelaDesde o rosé, até este incrível Elísio, passando pelos tintos e brancos com alma vincadamente duriense, são vinhos que de um modo ou de outro trazem sempre um elemento improvável na prova. O terroir genuíno é exactamente isso, carregar com orgulho as marcas que nos diferenciam, a simplicidade do que somos, os sonhos que construímos e a verdade com que nos associam.

Linguado com molho doce de cebola, salsa, pimentos, malagueta e amendoim tostado

-Para o molho cortem finamente 2 malaguetas vermelhas e sem sementes e juntem a 2 dentes de alho, 1 colher de açúcar mascavado,   1 colher de sopa de vinagre balsâmico, 3 colheres de sopa de azeite, 3 cebolinhas picadas, uma mão cheia de coentros, sumo de 2 limas e uma colher de sopa de brandy.  Misturem tudo muito bem;

-Para a cobertura esmaguem (levemente) 150g de amendoins descascados e juntem a 1 colher de chá de malagueta em pó e 2 colheres de azeite. Levem ao tacho até ficar bem tostado;

-Temperem o peixe com sal e pimenta (a pimenta coloquem apenas no lado com a pele), um pouco antes de o colocar na grelha. Deixem grelhar por cerca de 4 a 5 minutos de cada lado.

Barriga de porco ibérico com figos confitados e puré de chuchu

-Façam uma pasta com azeite, uma folha de louro, alhos com casca, pimenta preta e sal grosso. Temperem a barriga de porco ibérico com sal grosso, e de seguida barrem-na com a pasta dos dois lados. Juntem pimenta preta, o brandy e vinho do Porto, e levem ao forno com a pele virada para cima, durante 3h a 160 graus. Vão virando a cada meia hora;

-Para os figos confitados, coloquem as metades dos figos (com a parte cortada virada para baixo) num tacho e cozinhem lentamente durante 10 minutos. No final queimem-nos um pouco com um maçarico antes de servir;

-Depois de cozerem os chuchus e retirarem a água da cozedura juntem o alho, as natas, o leite e a manteiga e levem ao lume e deixem levantar fervura. Baixem o lume, tapem e deixem cozinhar até tudo ficar macio macio (10-12 minutos). Destapem e cozinhem até o líquido reduzir para metade (5 minutos) e temperem com sal. Passem num Passe-Vite até obterem um puré homogéneo. Juntem algumas sementes para terem um elemento crocante;

 

 

 

Vertical Callabriga | Houston, temos caril

“O que ia na tua cabeça enquanto permanecias na nave e os teus colegas estavam lá fora, a fazer história?
Resposta: Não parava de pensar no facto de todos os componentes dessa nave espacial terem sido fornecidos pelo tipo que enviou a proposta mais barata.” Michael Collins

CallabrigaEstimados leitores e amigos, começo por pedir desculpa por esta publicação chegar um pouco (muito) atrasada. A prova de que vos vou falar hoje aconteceu aquando da Essência do Vinho 2020 (finais de Fevereiro) e só estou a escrever sobre ela hoje. Tinha o meu caderno de apontamentos na Universidade do Minho (universidade onde trabalho) quando a mesma foi encerrada, durante o fim de semana, devido aos primeiros casos de COVID em Portugal.

CallabrigaHá umas semanas podemos, finalmente, regressar aos nossos gabinetes e eu pude reaver as notas de prova sobre a Vertical Callabriga. Callabriga é um vinho tinto do Douro de perfil contemporâneo, intenso e elegante, criado para reflectir a versatilidade e a actualidade apaixonante dos vinhos do Douro. É um dos mais inovadores vinhos da Casa Ferreirinha, a marca com maior tradição em vinhos de qualidade no Douro e uma das suas maiores referências mundiais.

CallabrigaÉ vinificado na histórica Quinta da Leda, casa do Barca Velha - Reserva Especial e do Quinta da Leda, e deve o seu nome ao monte Callabriga e a D. José Pelicarpo, bispo de Callabriga. Tem ainda a supervisão de uma equipa de enólogos, liderada por Luís Sottomayor. Com este terroir banhado a Douro e pincelado por apontamentos de distinta beleza como a ribeira de Aguiar, a antiga linha de caminhos ferro, as ruínas de um castro romano do tempo de Cristo e vários apiários, não é difícil inferir o património único de sensações que este vinho carrega.  

CallabrigaVou descrever os vinhos pela ordem inversa com que foram provados, começando pelo rubi denso Callabriga 2017 (17€, 91 pts.), cheio de ameixa preta, cerejas maduras, chocolate After Eight , resina picante, cedro e uma tosta muito bem integrada. No palato é fresco, estruturado, com taninos aguerridos, persistentência, complexidade e equilíbrio. 

CallabrigaNum registo completamente diferente, embora mantendo a cor rubi profunda,  o Callabriga 2015 (17€, 90 pts.) transporta aromas a lagar (parece que estamos numa vindima), uvas esmagadas, ameixa preta, framboesa, cassis, resina, mentol, violetas e noz-moscada. Na boca é harmonioso, elegante, longo e complexo, com taninos arredondados. 

CallabrigaRecuando mais 6 anos, chegamos ao rubi-grenã Callabriga 2009 (17€, 89 pts.) com o seu cacau, chocolate, resina, fruta preta compotada e uns fumados deliciosos. Na boca ainda está cheio de frescura, intensidade e profundidade, num registo muito vibrante.  Do ano mais seco que há memória no Douro vem o violeta Callabriga 2005 (17€, 88 pts.). No nariz exibe uva passa, ameixa compotada, doce de mirtilo, esteva, tabaco e uma resina menos evidente que os anteriores. Percorre o palato com uma sensação mais quente e com taninos muito bem integrados. 

CallabrigaO Callabriga 1999 (25€, 92+ pts.) foi o vinho que mais gostei de toda a vertical e é muito surpreendente, sobretudo por achar que ainda aguenta uns bons anos em garrafa. A sua cor ainda é rubi, mas já não tão intensa e os aromas são inebriantes: caril, pimenta preta e fruta seca (cereja, framboesa e ameixa). Na boca ainda está cheio de frescura, taninos delicados e estrutura.  

CallabrigaAo contrário do 1999 o Callabriga 1995  é um vinho que não vai ganhar muito mais em garrafa. No entanto, dá uma prova bonita com azeitona, aromas terciários de evolução, alguma fruta silvestre e uma surpreendente acidez.  Todos eles, são vinhos muito elegantes, equilibrados, complexos e muito marcados pelo terroir e pelo ano de produção, acrescento, por isso, genuínos à sua descrição. Sofrem, no entanto, do síndrome Michael Collins (que acabei agora mesmo de inventar ;)).

Callabriga Neil Armstrong, Buzz Aldrin e Michael Collins foram os três astronautas da missão que originou a primeira alunagem. Neil Armstrong e Buzz Aldrin, os mais conhecidos e imortalizados nas páginas da história da humanidade, foram responsáveis pela chegada do módulo lunar Eagle ao Mar da Tranquilidade e foram os dois primeiros a dar o grande passo para o Homem na superfície lunar.

Callabriga

Michael Collins, teve um papel fundamental/abnegado na missão ao pilotar sozinho o módulo de comando Columbia na órbita da Lua, enquanto os seus companheiros estavam na superfície lunar a alterar os livros de história, mas ... não a pisou. Os vinhos Callabriga não são um Barca Velha/Reserva Especial ou um Quinta da Leda, mas por vezes também eles parecem querer desafiar o tempo, os sentidos e a história, como é o caso do 1999. Que caril delicioso ele carregava meus amigos...  

Créditos: Placa deixada na Lua na missão lunar Apollo 11© NASA

The Yeatman | Porto Seguro

The YeatmanEm ano de celebração do seu 10º aniversário, o The Yeatman reabre hoje, 5 de Junho, renovado e com novos motivos de visita. O hotel vínico, que oferece uma experiência verdadeiramente epicurista, desde o seu restaurante gastronómico premiado com duas Estrelas Michelin aos tratamentos de vinoterapia, é em si um destino.

The Yeatman

Cumprindo rigorosamente todas as normas e recomendações exigidas pela Direção-Geral de Saúde e Turismo de Portugal, o The Yeatman regressa com programas integrados, que convidam a (re)descobrir o seu Porto seguro.

The YeatmanO programa “Porto Experience”, de três noites, tem como ponto de partida os espaçosos quartos do The Yeatman, todos com vista privilegiada sobre o Rio Douro e a margem Ribeirinha do Porto, com o seu velho casario colorido. Depois do pequeno-almoço, servido à carta na sala de pequenos-almoços, parta à descoberta da história do vinho do Porto, com uma visita às caves Taylor’s, a poucos passos do hotel.

The Yeatman

A visita, num seguro e autónomo formato áudio-guia, viaja pelos mais de três séculos da marca e termina com uma prova de dois dos seus vinhos mais icónicos: Chip Dry e LBV. A experiência prolonga-se para o restaurante das caves, Barão Fladgate, onde poderá desfrutar de um menu de três pratos, com a assinatura do Chefe Ricardo Cardoso (disponível de segunda a sexta). 

The Yeatman

Para restaurar energias, no regresso ao hotel, poderá usufruir da icónica piscina exterior ou piscina interior, e assistir ao pôr-do-sol sobre o rio, que pinta o céu e a cidade de tons mágicos. Em complemento, desfrute de um momento de pura tranquilidade e bem-estar, com os tratamentos de assinatura Caudalie, como a Esfoliação Crushed Cabernet ou a Massagem Divina, ideais para recuperar corpo e mente.   

The YeatmanA jornada de puro prazer termina com mais um momento gastronómico, desta vez no Dick’s Bar & Bistrô, com os seus generosos terraços, de onde é possível ir acompanhando o cair da noite sobre a cidade e a sua iluminação singular. A acompanhar os pratos de assinatura do Chefe Ricardo Costa, a carta de vinhos abre as portas da premiada garrafeira do hotel, com mais de 1.300 referências, entre as quais mais de 100 vinhos nacionais estão disponíveis a copo. 

The YeatmanPara quem procura uma escapadinha de fim-de-semana, o hotel sugere um programa de uma noite, com jantar no Restaurante Gastronómico (2 Estrelas Michelin), onde o Chefe celebra os 10 anos do restaurante com um menu que serve as tradições do mar e da costa portuguesa à mesa. Este programa está disponível de quinta a sábado e tem o valor de 640, 00 € (ocupação dupla) e 410, 00 € (ocupação single), incluindo suplemento de vinhos no jantar.

The YeatmanNo mês de junho, encontra-se também disponível o Programa de Primavera, de duas noites, e a partir de 1 de julho entra em vigor o Programa de Verão, de três noites, ideais para toda a família, já que as crianças são convidadas do hotel (uma cama extra ou berço por Quarto Superior Deluxe e duas camas extra ou dois berços por Suite Deluxe). Em todos os programas, o hotel disponibiliza condições flexíveis de reserva.

The YeatmanNeste regresso, há mais uma novidade para despertar o apetite: o The Yeatman Barbecue. O terraço do Dick’s Bar & Bistrô terá um conceito informal de carnes na grelha, mariscos e sushi, com um menu próprio à la carte, disponível de quinta-feira a sábado ao pôr-do-sol (19h00-21h00) e aos domingos ao almoço (12h00-15h00), a partir do dia 11 de junho.

 

Quinta do Monte Xisto | Ser ou não ser? Acto III, Cena I. Muito mais que uma questão.

"Olha para as minhas flores, há alecrim para ti, e isso teremos de recordar. Por favor: reza, ama, lembra-te!!!" William Shakespeare 

Quinta do Monte Xisto"Ser ou não ser" é a frase de abertura de um discurso solilóquio do príncipe Hamlet na chamada "cena do convento" da mundialmente famosa peça de William Shakespeare, Hamlet. Acto III, Cena I. Existem muitas "interpretações" desse discurso, mas as mais aceites estão relacionadas com soluções viáveis para alguns problemas, com a nossa atitude em relação a um evento de fractura, se devemos arriscar ou permanecer passivos perante crises e se a recompensa merece determinado sacrifício. 

Quinta do Monte XistoHamlet estava a considerar as dificuldades e a ponderar um estado "de ser" versus um estado de "não ser" - estar vivo e estar morto. A peça que foi escrita em 1599-1601, parece também querer introduzir uma nova planta/erva como símbolo do amor: o alecrim.  Se criássemos uma sondagem para os (imensos ;)) seguidores do blogue e perguntássemos que planta/flor simboliza o amor,   a vencedora seria, com certeza, a rosa e ninguém responderia alecrim. 

Quinta do Monte XistoEssa nova representação do amor em forma de alecrim surge nas várias representações de Ofélia no texto, na arte, na música, na poesia e nos romances inspirados pela sua personagem em Hamlet. A cena, genial, em que ela aparentemente enlouquece e oferece flores ao público é particularmente interessante. Embora Shakespeare não inclua as instruções de palco que ditam a quem é que Ophelia daria as suas flores, ela está no palco com Gertrude, Claudius e Laertes. Para acentuar a sua aparente loucura, Ofélia parece confundir Laertes (seu irmão) com Hamlet (seu apaixonado). 

Quinta do Monte XistoNessa cena, Ofélia descreve-nos o alecrim como sendo algo "para recordar". Já na Grécia antiga, os alunos usavam o alecrim para reavivar a memória, mas só recentemente essas teorias foram comprovadas cientificamente, levando a um aumento nas vendas de alecrim durante a época de exames. A sua antiga associação com Vénus, relaciona-o com o amor (a etimologia da palavra é do latim "ros" e "marinus" - orvalho do mar: Vénus nasceu da espuma do mar). Um desenvolvimento mais religioso/cristão ligou esta erva a Maria, sugerindo que ela estendesse a capa sobre um arbusto de alecrim, deixando as flores azuis (alecrim em inglês é RoseMary).

Quinta do Monte XistoA associação com a virgem Maria talvez explique melhor a sua ligação com o "afastar o mal" e atrair a "boa sorte" - outra razão pela qual está presente em casamentos e funerais. O alecrim é ainda associado ao amor para ser relembrado noutra peça de Shakespeare: Romeu e Julieta, não há melhor publicidade que um casal apaixonado.  Não deixa de ser curioso, que também no vinho, o alecrim parece estar ligado ao amor,  à memória e à família com melhor nariz do país ;) 

Quinta do Monte XistoHoje falo-vos do vinho Quinta Monte Xisto, pertencente a João Nicolau de Almeida.  João Nicolau de Almeida casa-se com Graça Eça de Queiroz Cabral em 1976 na cidade do Porto, ambos com ligações históricas fortes ao vinho.  O pai de João, Fernando Nicolau de Almeida, foi enólogo da Casa Ferreirinha, na qual criou o famoso Barca Velha. 

Quinta do Monte XistoPelo lado de Graça Eça de Queiroz Cabral as gerações passadas devem-se, principalmente, à família Rebello Valente e Pereira Cabral (Afonso Pereira Cabral, bisavô de Graça, era proprietário da Quinta do Paço de Monsul em Cambres e da Quinta do Cachão em São João da Pesqueira e a José Maria Rebello Valente, tetravô de Graça , foi oferecida a Quinta do Noval pelo Marquês de Pombal). Desta união vinicamente abençoada nascem 3 filhos: Mateus, João e Mafalda. 

Quinta do Monte XistoOs dois primeiros seguiram a alquimia dos vinhos e a mais nova seguiu a via da criatividade e cultura. Em 1993, João Nicolau de Almeida identificou um local extraordinário para a produção de vinho. Aparentemente era um sítio improvável, sendo literalmente um monte de xisto, de muito difícil plantação. Começou a comprar terrenos, pouco a pouco, com bastante dificuldade considerando que eram parcelas de pequena dimensão pertencendo a uma infinidade de proprietários. Foi necessário um trabalho digno de um investigador para identificar os mesmos, até conseguir formar a actual Quinta do Monte Xisto.  

Quinta do Monte XistoNesse processo, teve a ajuda dos filhos, que se foram aproximando de pastores e agricultores da zona, parceiros fundamentais na aprendizagem da cultura local. Em 2005, iniciam a plantação de vinha. Tudo fazia sentido: por cada camada de xisto que a surriba revelava, um novo projecto se formava. Um projecto familiar onde se conjugam as perspectivas e conhecimentos técnicos de duas gerações de enólogos. Conversam, falam, riem sobre o xisto, sobre o engaço, sobre tractores, sobre a vinha, o vinho e a vida. Nasce assim a João Nicolau de Almeida & Filhos, continuando a presença secular da família nos vinhos do Douro.

Quinta do Monte XistoFazendo jus ao lema da família, o da simplicidade no processo de vinificação para melhor traduzir a especificidade de um vinho, e do seu terroir, o Quinta do Monte Xisto 2017 (70€, 96 pts.) é dos vinhos mais puros que provei até hoje. Vinificado em lagares de granito com pisa a pé seguido de um estágio de 18 meses em pipas de 600 litros e envelhecido nos armazéns da família em Vila Nova de Gaia, é composto pelas castas Touriga Nacional (50%), a Touriga Francesa (45%) e o Souzão (5%).

Quinta do Monte XistoDe cor vermelha-grená, densa e opaca exibe no nariz cerejas, uvas esmagadas (aquele cheiro a vindima), esteva, giestas, sous-bois, fumo,  petrichor, grafite, xisto molhado e ... alecrim ;) No palato é cheio de frescura, intensidade, persistência e com uns taninos austeramente elegantes. Um vinho elegante, aveludado, macio, complexo, harmonioso e impactante. Foi o parceiro ideal de um Lombo de vitela, cebola roxa confitada e puré de pastinaga.

Quinta do Monte XistoEste é daqueles, que com certeza vou querer conversar no futuro, vou andar com alecrim nos bolsos para "afastar o mal" e atrair a "boa sorte" ;)

Esse alecrim que cheirei no copo é uma boa metáfora para o projecto que suporta este vinho:  amor,  memória e família. "Ser ou não ser" para os Nicolau de Almeida é muito mais que uma questão, é uma afirmação de identidade. Parabéns pelo vinho, foi o melhor que provei no Cá por casa.

Lombo de vitela, cebola roxa confitada e puré de pastinaga:

- Levem as pastinacas, o alho, as natas, o leite e a manteiga ao lume e deixem levantar fervura. Baixem o lume, tapem e deixem cozinhar até as pastinacas ficarem macias (10-12 minutos). Destapem e cozinhem até o líquido reduzir para metade (5 minutos) e temperem com sal. Passem num Passe-Vite até obterem um puré homogéneo;

-Para o jus de carne, usem alguns ossos ainda com pedaços de carne (peçam no talho, se for de novilho ou borrego, melhor); cebola, cenoura e aipo partidos grosseiramente; e deixem cozinhar por 2 horas em lume brando. No final da cozedura coem o preparado para ficarem apenas com o liquido. Juntem manteiga, sal, pimenta, vinho do Porto e um pouco de limão. Deixem reduzir para metade em lume brando;

-Partam a cebola roxa a meio (como na imagem) e grelhem num fio de azeite em lume brando (10 minutos de ambos os lados). Cortem um pouco as bases de modo a poderem fixar a cebola ao prato (se tiver a base vai cair). Com a base superior (a que vai ficar voltada para cima no empratamento) virada para baixo tostem um pouco em lume alto durante 1 minuto;

- Grelhem os lombos de vitela (lume alto durante 2 minutos de cada lado) em azeite, temperando com sal e mistura de pimentas.